Uma história sobre o poder do optimismo

Hoje partilho convosco uma história íntima e verdadeira – a história dos cancros do meu avô, e do poder do optimismo.

Antes de avançar mais na história, gostava que conhecessem um pouco mais este meu avô paterno. Chama-se José Guilherme mas, cá para nós, trato-o por Manecas. Fui a primeira neta do meu Manecas e, se me permitem, também a mais mimada por ele.

Sempre que íamos a Espinho visitar os meus avós, o meu avô levava-me a todo o lado com ele. Passei muitas horas na sua oficina (ele é carpinteiro), onde me ensinou a martelar e a construir cadeirinhas para os meus bonecos, onde me deixava brincar com as farripas e com as tábuas velhas de madeira. Lembro-me de me ter deixado pintar-lhe o muro todo a oficina com giz, e da satisfação que isso me dava. Lá, na oficina, eu era uma mini carpinteira, dona e senhora de um martelo pesado que eu achava, do alto dos meus 6 ou 7 anos, que sabia usar na perfeição. Mesmo quando me enganava e, em vez de acertar no prego, acertava num dedo, o meu avô via pelo canto do olho se eu estava bem e deixava-me estar sossegada, a fingir que era muito crescida. E, como se não fosse suficiente, o meu avô construiu-me um baloiço na oficina, para eu me entreter (ainda mais).

Mas havia mais… O meu avô tinha um grande grupo de amigos, que se reunia várias vezes para aqueles almoços que se arrastavam pela tarde inteira. Era uma reunião só de gente adulta, mas o meu avô leva-me, todo babado, e eu adorava andar a conviver com os amigos dele. Ao lado do meu avô, não me sentia uma criancinha. Sentia-me uma mulherzinha.

Dizer-vos que o meu avô é o homem mais bondoso que eu conheço, não é exagero. Quando era criança, passou fome. Mas realmente fome. Ao ponto de ter de se contentar com as migalhas que apanhava na gaveta do pão. Andava descalço. E era um reguila. Quando cresceu e conseguiu sair “da miséria”, podia ter-se tornado um homem snobe, como tantos outros que conhecemos. Mas o meu avô guardou a sua simplicidade. Escolheu continuar a dar valor às pequenas coisas da vida. Não liga a marcas. Não liga a restaurantes caros. Não liga a carros. Liga, sim, a poder comer sempre às 12h30, a dormir a sua sesta e a poder continuar a ir fazendo os seus trabalhinhos na oficina que ainda hoje tem.

Apesar de um início de vida pouco abastado, o meu avô é dono de uma vida absolutamente incrível. Está sempre bem-disposto. Poucas foram as vezes que, em 30 anos, vi o meu avô mal humorado. E, talvez por isso, talvez pelas suas rotinas, até há poucos anos, o meu avô não tomava um único comprimido, coisa raríssima em pessoas acima dos 75 anos.

Foi então que, assim meio do nada, lhe diagnosticaram cancro da próstata. Já não estava num estágio inicial e, por isso, a operação já não fazia sentido. No entanto, os médicos falaram em radioterapia e quimioterapia. Quem ouve um diagnóstico destes fica em pânico. Não posso saber o que terá sentido perante o conhecimento desta doença. Não consigo sequer imaginar. Mas, assim que falei com ele, o que me disse foi tão simples quanto isto: “no que depender de mim, não é disto que hei de morrer”. E lá continuou a fazer as suas piadas do costume, bem disposto como sempre, a brincar até com os exames que teve de fazer.

Este meu avô, realmente, é uma delícia. Enfrentou o cancro de frente e, mesmo sabendo que seria uma doença com a qual teria de viver para o resto da vida, aguentou-se firme. Manteve as suas rotinas. Continuou brincalhão, bem disposto e optimista. Fez tudo à risca e uma coisa é certa: o raio daquele cancro nunca mais evoluiu.

Passaram alguns anos desde que tivemos essa notícia e, recentemente, tivemos outra igualmente má – tem um cancro de pele. Ao contrário do cancro da próstata, que é algo que, fisicamente, não se vê nem se revela aos outros, este novo cancro que o meu avô tem é algo visível, localizado no topo da cabeça.

O tratamento, numa primeira fase, é atópico. Por isso mesmo, criaram-se crostas incomodativas e que, para quem vê, não são nada agradáveis. E o meu avô, sempre tão optimista, bem disposto e brincalhão com os amigos, passou a sentir vergonha de sair de casa. Foi-se abaixo. Posso dizer-vos que nos partiu mais o coração vê-lo assim desolado e angustiado do que quando recebemos a notícia de mais esta doença.

Mas foi sol de pouca dura. Como ele não é homem de ficar quieto quando as coisas não estão do seu agrado, fez uma visita mais cedo ao médico para perceber, afinal, se a coisa se ia resolver ou não. Assim que a médica lhe disse que o tratamento estava a correr como o esperado e que, apesar do aspecto feio das crostas, estava a melhorar como era suposto, voltou novamente a ser o mesmo Manecas de sempre.

Podem dizer que, pelo facto de ter uma idade mais avançada, o cancro e as doenças não evoluem tão rapidamente como em alguém mais novo, com mais vitalidade. Eu prefiro acreditar no poder do optimismo. Quando queremos acreditar que somos mais fortes, que somos capazes, estamos a enviar sinais ao nosso corpo (e ao universo), e a atrair aquilo que realmente queremos.

A vida nem sempre corre como queremos. Surgem adversidades. Surgem desafios. Mas, então, podemos subjugar-nos à nossa “miséria”, ou fazer a nossa sorte. Fazer o luto que tiver de ser feito, processar os sentimentos menos positivos e fazer um twist aos nossos pensamentos. Mesmo no que diz respeito à saúde, se nos predispusermos a fazer o que for necessário para ficarmos melhores, vamos conseguir. Se pusermos na cabeça que vamos perder peso, vamos conseguir. Se nos mentalizarmos que vamos passar àquela cadeira ou arrasar naquela entrevista de emprego, vamos fazer o necessário para lá chegar.

“Instead of worrying about what you cannot control, shift your energy to what you can create.” ― Roy T. Bennett, The Light in the Heart