Quem Quer Casar com o Meu Filho?

Há coisas que não entendo. Programas em que os homens escolhem as mulheres para ter uma relação, é uma delas.

Meio mundo celebrou o Dia da Mulher há menos de uma semana e, nessa altura, por todo o lado viam-se mensagens de “empowerment” feminino. Mas, poucos dias depois, estreiam DOIS programas de televisão, nos dois canais portugueses de maiores audiências, em horário nobre, para que um homem escolha, de entre várias pretendentes, a que mais gosta. Confesso que já estava a dormir quando deram os dois programas mas acabei por ir ver alguns trechos para ter a certeza que aquilo aconteceu. E aconteceu. E meio mundo viu.

Há muito para dizer sobre “Quem Quer Casar com o Meu Filho?” e “Quem Quer Namorar com o Agricultor?”.

Por muito mau que fosse, na Casa dos Segredos, no Love On Top e, recentemente, no Carro do Amor, juntavam-se pessoas e elas lá viam ser eram compatíveis entre elas. Por muita badalhoquice que se tenha passado (nos dois primeiros programas, pelo menos), a verdade é que não era um homem a receber um grupo de pretendentes e a escolher a que mais se adequa.

Acho que vale a pena referir que o protótipo de homens e mulheres que concorrem a estes programas é todo o mesmo. Vale o que vale mas, na minha opinião, mais valia irem sair à noite para o Kaxaça e iam-se encontrar lá à mesma.

Não consigo, sobretudo, entender o programa “Quem Quer Casar com o Meu Filho?”. Mães cuja mentalidade ficou no século passado. Que educaram os seus filhos a serem tão mimados que acham que uma namorada (ou mulher) tem de cuidar do seu filho como se ainda fosse um bebé. Como se não tivesse de ter responsabilidade. Mas, em relação a essas mães, por muito deprimente que o considere, ainda tolero. O que me preocupa são as miúdas que concorreram a isto. Mas o que é que lhes vai na cabeça para se sujeitarem a este papel?

Nestes programas, as mulheres tornaram-se publicamente objectos. A mim assusta-me pensar que a minha afilhada de 9 anos pode acabar de jantar, sentar-se no sofá com a família e, quando saltar pelos canais nacionais, deparar-se com uma situação em que vê um homenzinho a escolher uma mulher para namorar. As meninas e adolescentes que vêm televisão portuguesa em horário nobre vão assistir a estes programas. Vão ficar a achar que isto é giro. Que é um homem que tem que escolher a mulher, com base sobretudo em atributos físicos. E que, por isso, elas têm que crescer focadas em serem lindas e magras, e em tratarem os seus namorados como se fossem Deus.

Andar desesperadamente à procura de um namorado, só porque sim, já é mau. Mas fazê-lo em plena televisão, concordando com uma mentalidade em que as mulheres devem servir os homens, envergonha-me.

Que vergonha de programas. Que vergonha de televisão.