O amor não bate

Um pouco por todo o mundo, o dia 14 de Fevereiro é conhecido como o Dia dos Namorados. Neste que é o dia mais romântico do ano, não posso deixar de reflectir sobre esta data e sobre o amor.

Só em 2019, já foram 10 mulheres mortas por violência doméstica. São números assustadores e devastadores. Parte-me o coração saber que há, por este mundo fora, milhares de mulheres vítimas de violência doméstica. Sem saber para onde ir, a quem recorrer e como voltarem a ser livres. Dilacera-me saber que há crianças que crescem neste ambiente, a verem as suas mães espancadas e, também elas, a serem agredidas.

Enfurece-me que existam tantas pessoas más neste mundo. E preocupa-me o facto de que uma parte destes agressores, que só se tornam monstros dentro de casa, pareçam homens decentes quando andam na rua. Pessoas de quem ninguém desconfia.

Não consigo imaginar viver a minha vida com medo. Com medo de dizer o que penso. Com medo de vestir uma roupa que possa ofender o meu namorado. De cumprimentar alguém que lhe faça ciúmes. Viver numa concha vazia e tornar-me um fantasma de mim mesma.

Parece tudo perfeito ao início. Ele é o homem perfeito – bem apresentado, charmoso, inteligente, interessante. É alguém envolvente, que nos faz sentir seguras, desejadas e especiais. Os encontros esporádicos passam a ser mais regulares, até se tornarem diários. Em menos de nada estamos a viver juntos. De repente, não há espaço para falar com os amigos nem para ir almoçar com os colegas do trabalho.

Quando damos por nós, estamos embrulhadas numa história de amor que parece fantástica. Afinal, temos um homem incrível que só quer estar connosco a toda a hora e que nos faz sentir o máximo. Até que, um dia, tudo muda. O olhar apaixonado que ele nos fazia ganha um vislumbre de raiva quando saímos de casa com um top mais decotado, ou com as unhas vermelhas. Em vez de um beijo, recebemos um empurrão violento contra a parede. Um estalo que nem vimos de onde veio.

Pouco depois, enquanto contamos as nódoas negras e as costelas partidas, ele começa a lamentar-se. Chora e pede desculpa. Faz-nos sentir que a culpa é nossa. Que ele só reagiu assim porque nos ama muito e que, se não tivéssemos cumprimentado aquele colega, ou usado um vestido curto, ele não teria agido assim. Oferece-nos flores e um jantar e, até ao próximo surto, parece que está tudo bem. Claro que não dizemos nada a ninguém porque a vergonha fica camuflada numa sensação de culpa e de esperança de que tenha sido só uma vez. Mas nunca o é.

De repente passam-se meses, que se tornam em anos. Nascem crianças e a capacidade de enfrentar a situação e lutar pela liberdade esmorece. Tornamo-nos sombras de nós mesmas e só rezamos para que a próxima sessão de pancada não deixe tantas mazelas. Ou que nos bata só em nós, e não nos nossos filhos. Vivemos em silêncio, com medo de dizer e fazer algo que torne tudo pior. Mas não vivemos… existimos.

Esta é a história de muitas mulheres em Portugal e em todo o mundo. São, para elas, histórias de amor. A sua história de amor. E, neste que é o dia mais romântico do ano, vale a pena pensar naquilo que é, realmente, o amor. E o amor não é violência. Porque o amor não bate. O amor não mata.

Neste Dia dos Namorados, sejam solteiras, casadas ou comprometidas, valorizem-se. Sempre. Todas as relações têm altos e baixos. Todos somos diferentes uns dos outros. Até podemos cometer erros. Mas violência não é um erro – é um crime.

Sejam agressões físicas ou psicológicas, lembrem-se sempre do vosso valor. Têm família e amigos a quem podem recorrer se, algum dia, estiverem nessa situação. Mas, por muito que sintam amor por alguém que vos agride ou violenta, seja de que forma for, virem as costas. Recusem-se. Permitam-se afastarem-se de alguém que vos faz mal. Porque ninguém tem o direito de vos agredir.

Não. Nenhuma relação amorosa é sempre um mar de rosas. As pessoas discordam e discutem. Por vezes até elevam a voz. Mas ofensas e agressões não podem fazer parte. Por vocês e por todas as mulheres que conhecem, sejam fortes e lembrem-se sempre que o amor não bate. O amor não mata.