Não Vamos Ficar Todos Bem

Perdoem-me. Precisava mesmo deste desabafo.

Ao início foi muito bonito, até emocionante, ver todas as mensagens do #VamosTodosFicarBem associados a um arco-íris. E não me interpretem mal, até sou uma pessoa bastante optimista. Mas o cenário mudou. Radicalmente. Agora não acredito mesmo que vamos todos ficar bem. Não vamos. Não podemos ficar todos bem depois de tudo o que se passou e ainda se vai passar. Como em toda e qualquer crise, vamos dar a volta eventualmente, um dia mais tarde, e voltaremos a ficar bem. Mas não será agora. Não será este mês, nem será este ano. Provavelmente não será daqui a 2 ou 5 anos.

Perdemos centenas de pessoas, e outras tantas ainda vão perecer perante esta pandemia (para além de todas as outras doenças que já nos atormentavam). Vivemos com um medo constante de tocar em algo que nos contagie. Temos medo de morrer e, mais, temos medo de contagiar alguém e sermos o responsável pela sua infecção (já para nem falar do pior). Vivo com esse medo constante, e não sei quando é que ele vai desaparecer. Sinto-me culpada quando saio à rua para dar uma caminhada, sinto-me culpada quando vou ao supermercado. E para além do medo e da culpa, sinto-me preocupada com o que aí vem.

Não sei se vai haver um segundo surto, mas acredito que sim, pelo menos enquanto não houver uma vacina – e essas descobertas demoram o seu tempo. E enquanto isso, a economia colapsa.

Empresários que investiram todas as suas poupanças nos seus negócios, estão a ver-se reduzidos a dívidas astronómicas. Famílias que perderam trabalho, muitos deles sem contrato, e que nem subsídio de desemprego têm. E, ainda que muitos de nós tenhamos os ordenados reduzidos devido às medidas de apoio do Governo às empresas, as compras online têm disparado. E não estou a falar de comida ou bens essenciais. O meu carteiro desabafou comigo, dizendo que nunca antes tinha feito tantas entregas de lojas de roupa sem ser na altura do Natal. E eu pergunto-me, que loucura é esta? Não sabemos se as nossas empresas se aguentam mais uns meses, não sabemos se vamos continuar a ter os nossos ordenados intactos ou se vamos sofrer cortes abruptos e deixar de poder pagar as despesas. Talvez até tenhamos perdido o trabalho, mas não conseguimos deixar de fazer encomendas de vestidos que só vamos usar uma única vez?

Aflige-me esta mentalidade do consumo desenfreado. Aflige-me mesmo! Não vejo a população a querer poupar, consciente de que podem atravessar momentos muito sombrios em breve. Ainda continua a ser mais importante desfilar a última tendência. Sejam conscientes, vamos passar por períodos negros e as vossas poupanças vão ser postas à prova. Reduzam o consumo ao essencial, e apostem no que é nacional, sempre que for possível.

Não menos importante, preocupa-me verdadeiramente que as crianças, os adultos de amanhã, a serem privadas dos seus professores. Sim, porque provavelmente os vossos filhos têm acesso a um computador, a um tablet para assistir a aulas online, mas há milhares em Portugal que não têm essa sorte. A mesma coisa acontece com a televisão – ainda há muitas famílias sem essa possibilidade. E, perante a crise económica que temos pela frente, o que farão as famílias sem rendimentos para conseguir pôr comida na mesa? Vender o que têm, como computadores, tablets e televisão. Ou então pedir, ou roubar. Sim, acredito que os roubos vão disparar em massa, fruto do desespero de muitos. Para alguns, será só uma desculpa para o que já faziam antes sem escrúpulos. Para outros será a fome e o desespero de não ter comida para os seus filhos.

Desculpem a minha frieza e o meu desabafo mas acredito que, antes de ficarmos todos bem, NÃO VAMOS FICAR TODOS BEM. E só quando tivermos a consciência disso, poderemos agir de forma mais ponderada e mais adequada aos tempos que aí vêm.

Por isso, e agora que vamos, aos poucos, assistir ao desconfinamento, sejam conscientes. Sejam responsáveis. Por vocês e pelos outros. Por mim, e pelos meus. Respeitem as medidas de segurança e não sejam arrogantes, nem por um minuto, ao achar que só acontece aos outros. Vamos ver se o pior ainda não está por vir…