Destralhar

Ontem vim para casa dos meus pais. Tinha dois objetivos concretos. Primeiro, matar saudades deles, porque estive tão embrulhada no último evento da minha empresa que não consegui estar com eles. Segundo, destralhar.

Fui inspirada pela Cláudia Ganhão, uma blogger muito querida que fala sobre minimalismo e simplicidade, e aproveitei para dar um destralhanço geral no meu quarto antigo.

Com duas mudanças de casa no último ano, percebi que tinha demasiadas tralhas. Demasiada roupa. Demasiado calçado. Demasiados acessórios e coisinhas que não interessam a ninguém. Como tenho um armário bastante pequeno na minha casa em Algés, mandei quilos e quilos de roupa para Setúbal – a casa dos meus pais.

Resumindo e baralhando: em Setúbal, tinha (e ainda tenho) roupas com mais de 15 anos. Roupas que usava no meu secundário ou que comprei para o meu primeiro trabalho. Se, por um lado, é absolutamente nostálgico andar a revirar o armário e encontrar peças de roupa com as quais vivi momentos tão felizes (e que ainda me servem), por outro lado fez-me perceber que tinha ali roupa que já não visto há pelo menos 7 anos.

Pus mãos à obra. Avisei a minha mãe para o caos que ia começar naquele quarto, não fosse ela assustar-se e achar que me tinha dado uma macacoa qualquer, e comecei. Revirei o armário de uma ponta à outra e fui fazendo várias perguntas muito directas para perceber se valia a pena manter cada uma das peças:

  • Ainda me serve?
  • Não tem buracos, nem está amarelada, nem estragada de alguma forma?
  • Vesti-a recentemente (ou, no caso de roupa de Verão, se a vesti no último Verão)?
  • Ainda me identifico com aquela peça?

Se tiver respondido “NÃO” a uma das perguntas acima, a peça ia imediatamente para o chão. Passadas duas horas, esvaziei mais de 1/3 do meu armário de Setúbal. A sensação de libertação é fantástica, mas ficou uma vontade enorme de continuar a destralhar. De ser ainda mais rígida.

DestralharDoeu-me o coração (e a carteira) encontrar tanta roupa nova, ainda com etiqueta, por estrear. Peças que nunca usei e que deixaram de me servir, ou que já não me imagino a usar. Ainda deixei no armário algumas peças que adoro, que ainda uso, que ainda estão em condições e que usei recentemente mas que me deixaram em dúvida sobre o seu futuro. Essas ainda ficaram lá, numa prateleira para eu decidir o que lhes vou fazer. Mas a vontade é de continuar a destralhar. De mandar “tudo fora”. De só ficar com o absolutamente essencial.

Há qualquer coisa de libertador em destralhar, em nos livrarmos do que está a mais nas nossas casas. Penso que possa ser o primeiro passo para algo mais profundo, para uma forma de estar na vida em que só guardamos pessoas e sentimentos que nos fazem bem.

Mas antes de virar toda filosófica, quero continuar a praticar o destralhanço. Quero continuar a fazer selecções quinzenais (ou sempre que conseguir) daquilo que está a mais, do que está a ocupar espaço sem utilidade.

Destralhar

No final, doei mais dois sacos iguais a este que, quando me lembrei de tirar as fotografias, já tinha doado.

Desafio-vos a fazer o mesmo. A fazerem uma ronda aos vossos armários, agora que vão fazer a mudança para as roupas de Verão, e a tirarem para fora tudo aquilo que já não gostam, que não vos serve ou que já não está em condições. No final, doem. Costumo doar a instituições de caridade, sobretudo orfanatos. Mas também dou a pessoas que conheço e que precisam. A verdade é que, se as peças ainda estão boas, podem dar muito jeito a alguém que precise.

Peguem num saco grande e doem tudo aquilo que já não querem nos vossos armários. Essa é a melhor parte de destralhar!