Açores, São Miguel

Há uns anos, tive contacto com um livro que mudou muito a minha maneira de ver as relações. Esse livro chama-se “Ensaio sobre a Dádiva” e nele aprendi que, seja em que relação for, todos damos algo à espera de ter retorno. Nenhum acto é gratuito, porque pretendemos sempre que nos seja dado algo em troca.

Os pais educam os filhos e esperam que estes retribuam estudando e tendo sucesso na vida. Damos o nosso ombro aos nossos amigos, esperando que eles façam o mesmo quando precisamos. Damos amor à nossa cara metade, esperando dela a mesma coisa.

O problema são as relações em que não há retorno.

Quando isso acontece, a pessoa que dá demais sente-se defraudada e existe uma ruptura na relação. Imaginem uma relação como um contrato entre duas partes. Num contrato, tem sempre de haver reciprocidade, certo? O mesmo acontece nas relações – se um lado falhar ao seu compromisso, quebra-se o contrato.

Há muitos anos que vejo isto acontecer à minha volta – inclusive comigo. Acho que nós, mulheres, somos muito assim. Damos tudo o que temos e o que não temos. Somos a namorada, a amante, a melhor amiga, a mãe, a assistente pessoal, a babysitter, a empregada, a cozinheira e tudo o que for necessário para aquela pessoa especial. Mas e quando essa pessoa especial não retribui? Ninguém consegue passar uma vida inteira a dar sem receber nada em troca. Todos têm os seus limites. E aposto que se vocês nunca passaram por isto, conhecem alguém muito próximo que vive assim – aquém do que merece.

Com o tempo aprendi que os homens são muito egoístas. Adoram ter esta mulher 10-em-1 ao lado, que lhes facilite a vida e que se multiplique em tudo o que necessitam, mostrando sempre interesse no mais ínfimo detalhe da sua vida – sejam assuntos profissionais, familiares ou de quantos golos marcou num jogo entre amigos, ou a quantidade de proteína que ingeriu durante o dia. Mas quando chega a hora de fazerem igual… não acontece. E não acontece porque não lhes está no sangue, ou porque os habituámos mal. Estão tão acostumados a que tudo se passe em seu redor, que se esquecem que uma relação é a dois, e que merecemos o mesmo grau de dedicação e empenho que lhes damos.

E nós vamos acumulando. Vamos silenciando gritos. Vamos controlando murros na mesa. Até que acontece. Solta-se o grito do ipiranga e “oh meu deus”, somos tão injustas. Quando exigimos aquilo que merecemos, estamos a pedir demais.

Sabem qual é a pior parte? É a culpa é nossa, porque permitimos que toda esta fantochada. Por isso, que 2017 seja o ano em que todas as mulheres que dão demais, só dêem demais a si próprias. Vocês primeiro, sempre. Porque eles vão sempre colocar as necessidades deles em primeiro lugar.

Não vivam em função de uma pessoa que não faz o mesmo por vocês. Vivam em função dos vossos sonhos e objectivos. Se o vosso mais que tudo quiser realmente fazer parte da vossa vida, ele adapta-se como vocês se adaptam. Ele empenha-se como vocês se empenham. Ele entrega-se como vocês se entregam.

É que cansa demais este papel de trouxa. Desmotiva a cada expectativa não correspondida – sim, que nós sabemos que eles se estão nas tintas, mas mesmo assim criamos expectativas em relação a certos momentos. “Será que é desta que ele se vai lembrar? Que ele vai fazer? Será que é agora?”, perguntamos nós, querendo acreditar que sim, mas sabendo que não. É que mais do que cansar, este papelinho que fazemos entranha-se. Habituamo-nos a esta relação medíocre onde estamos só nós a dar tudo. E não, my ladies, uma boa relação não é uma relação onde só uma das partes se interessa, se entrega e dá tudo o que tem. Isso só vai gerar frustração, desmotivação e negatividade. Trust me, I’ve been there.

No entanto, se o vosso respectivo for um fofinho e vos der tudo o que vocês lhe dão e que merecem, esqueçam tudo o que leram. Nesse caso, estimem-no muito bem, porque há poucos assim.