Açores by Living in B's Shoes

Há duas semanas, um colega meu entrou em coma segundos antes de se pôr no carro com uns clientes, a caminho de uma descida. Acordou 10 horas depois no hospital, completamente taralhoco, e sem percepção da realidade. Até agora, os médicos não sabem do que se tratou.

Há uns dias, o meu tio estava sossegado a ver umas coisas no computador e, em menos de nada, teve um AVC. Enquanto o meu pai correu com ele para o hospital mais próximo, teve outro AVC até que, quando finalmente chegaram ao hospital, lhe deu outro ainda mais forte e ficou lá internado. Assim, num espaço de quatro horas, teve três AVCs. O quarto sucedeu durante a noite e levantou suspeitas de outros problemas graves de saúde.

Podem perceber que os últimos dias têm sido de uma intensidade emocional enorme. Tentamos não nos deixar ir abaixo com este tipo de situações que acontecem à nossa volta, mas é impossível ficar indiferente à brutalidade da Natureza. Ela põe-nos no nosso lugar. Somos pequeninos, somos insignificantes e, em menos de nada, deixamos de estar aqui.

Embora evite pensar frequentemente na morte, é inevitável para mim, quando confrontada com situações de doença grave, não começar a imaginar quando irei perder os meus pais, os meus avós, o meu irmão. De pensar até em como será a minha morte. Irei morrer velhinha e a dormir? Terei uma morte dolorosa? Este tipo de pensamentos deixa-me inquieta e ansiosa, mas não os consigo evitar em certos momentos. Pensar na morte faz-me querer aproveitar a vida porque, na verdade, nunca sabemos quando chegará a nossa hora.

Penso naquelas pessoas que dedicaram toda a sua vida ao trabalho para juntar dinheiro e ter uma boa reforma. Diziam que quando chegassem a velhinhos iriam viajar e aproveitar a vida. Muitas delas não chegaram lá. Penso também em todas aquelas pessoas que vivem uma vida sem comer doces, fritos ou álcool e, depois, deparam-se com doenças mais associadas a quem usa e abusa de tudo isso. Oh, a ironia da vida…

Todas estas coisas fazem-me pensar, e muito, no meu percurso por aqui. A incerteza do que virá amanhã é, por um lado, assustadora. Por outro, libertadora. Gosto de pensar positivo e acreditar que, quando chegar a minha hora, terei vivido o que quis viver, ao lado das pessoas que me querem e fazem bem. Quero pensar que todas as coisas más que foram colocadas no meu caminho serviram para aprender uma lição e aproveitar o bom que se seguiu.

Ter medo da morte (minha e daqueles que amo) e de uma doença grave faz-me tomar decisões de forma mais consciente. Evitar comportamentos de risco, aproveitar a minha família, juntar dinheiro para fazer as viagens que sempre quis. Faz-me querer pôr a minha felicidade acima de tudo.

A vida é tão escassa. Tão incerta. Tão cheia de chatices e percalços. Temos o dever de a viver em pleno. Temos o dever de ter a consciência que cada dia é uma oportunidade de sermos melhor, de aprender, de viver. Que não podemos deixar a nossa felicidade para amanhã porque o dia de hoje nunca mais se vai repetir e o amanhã poderá não chegar.

Respirar fundo. Abraçar a vida. Ser feliz.