Esta semana acompanhei uma grande amiga a fazer um teste para saber se tinha SIDA. Não é um assunto fácil mas, talvez por isso, acho que devo partilhar o que aprendemos com tudo isto.

Ainda não chegámos aos 30. Achamos que vamos viver para sempre, que vamos casar, ter filhos, viajar pelo mundo, dançar até perder as forças e chegar a velhas cheias de genica. Mas ninguém vive para sempre e, por vezes, pequenos gestos podem mudar o rumo do nosso futuro.

Quando ela começou a namorar, pouco conhecia sobre ele. O desgraçado (sim, “desgraçado” porque, mais tarde, viemos a descobrir histórias horrendas sobre o dito cujo) lá a conquistou com o seu charme. Ela apaixonou-se, algo que precisava já há uns anos. Mas a verdade é esta: eles mal de conheciam. Na verdade, quantos de nós conhecemos realmente bem a pessoa que temos ao nosso lado quando começamos a namorar com ela?

As coisas desenrolaram-se e eles envolveram-se fisicamente, como todos os adultos que estão numa relação o fazem. O problema é que, com o calor dos desejos, os métodos contraceptivos foram esquecidos. E, afinal, quantos de nós deixamos de usar preservativo quando encontramos um companheiro que achamos que é para sempre? E quantos já sucumbiram ao desejo da carne num one night stand sem pensar nos riscos e sem protecção?

Quando estamos ali, no calor do momento, é difícil sermos racionais. Ninguém pensa, naquele instante, que a pessoa que está ali connosco, e que é tão gira/o, sexy e que nos tira o fôlego pode ser doente. Mas pode… E o nosso futuro pode ficar condicionado, perdoem-me, por uma queca mal pensada.

Eu sei que a SIDA não se transmite apenas por via sexual, mas esta continua a ser, em pleno século XXI, a maior forma de propagação do vírus. Realmente o ser humano, quando toca a sexo, perde toda a racionalidade. E é óbvio que, para além do HIV, há todo um cenário assustador de DSTs que condicionam a vida de quem as tem.

Mas dizia-vos eu que a minha amiga quis ir fazer o teste para saber se tinha SIDA. Na cabeça dela, depois de todas as histórias macabras que descobriu sobre o seu ex, havia essa possibilidade e, por isso, não descansou enquanto não conseguiu ir fazer o teste. Fui com ela porque, nestes casos, não devemos deixar as pessoas que amamos passar por algo assim tão intenso sozinhas. Quer o resultado fosse positivo, quer fosse negativo, quis estar lá com ela.

Depois de tentarmos obter informações online sobre o CAD (Centros de Aconselhamento e Detecção Precoce para a Infecção VIH/sida), percebemos que muitos destes centros não dispunham de informação oficial online. Tentámos contactar vários deles, mas os números que disponibilizavam online não funcionavam, ou ninguém nos atendia. Percebemos, também, que não era possível fazer-se este teste a um domingo, pelo que tivemos de aguardar até um dia de semana.

Quando conseguimos finalmente ir ao CAD da Lapa (porque o do Restelo apenas abria às 11h e ela não aguentava esperar mais), o técnico que fazia os exames não estava presente. Quem lá estava, na sala de espera, era um grupo de pessoal da nossa idade com aquilo que costumamos dizer de “óptimo aspecto”. Não tinham aquele ar de consumidor assíduo de drogas, encovados e apenas pele e osso. Eram pessoas perfeitamente normais, bonitas e “bem vestidas”. E isso assustou-nos.

Sim, as doenças deste tipo não se vêm no exterior. Quem tem sida ou uma DST não tem apenas de ser o carocho que se anda a injectar na esquina. Não podemos ver se uma pessoa tem uma doença pela maneira como se apresenta a nós. E nós, tão ingénuos, queremos esquecer-nos disso num momento mais carnal. Quantos daqueles jovens como eu, naquela sala, estariam infectados? Quantos teriam sida e, por isso, não poderiam ter filhos?

Caramba, eu quero ser mãe. Quero sentir uma vida a crescer dentro de mim durante 9 meses. Quero ser feliz e dormir descansada. Já me bastam todos os problemas horríveis de saúde que posso contrair e contra os quais não posso fazer nada. Mas em relação a DSTs e sida sim, depende de mim. Apenas de mim.

Quando a psicóloga do Restelo nos atendeu, parecia que tinha pressionado o PLAY numa cassete. Debitou todo um texto decorado e cheio de palavras caras apenas para nos dizer aquilo que já tínhamos lido online. Foi simpática, claro, mas vi nos olhos da minha amiga que ela não estava a conseguir prestar atenção e que só queria mesmo fazer o teste com a maior urgência. Queria tirar aquele peso de cima. Quando terminou de debitar o discurso ensaiado, fomos encaminhadas para a sala da colheira. Em segundos, a técnica picou-lhe o dedo, recolheu um pouco de sangue e tivemos de esperar meia hora. Uma interminável meia hora onde, por mais que a tentasse distrair, sabia que os seus pensamentos não saíam dali.

Meia hora depois, voltámos à sala e a psicóloga disse-nos aquilo que queríamos ouvir: a minha amiga estava bem. Felizmente, e como sempre quisemos acreditar, ela estava bem. Saiu-nos uma tonelada de cima (sim, que eu também já não aguentava mais pensar nisto).

Esta foi uma história com final feliz que poderia ter corrido muito mal. Ela apaixonou-se por um tipo que não conhecia bem, envolveu-se com ele e poderia ter condicionado a sua saúde por causa dele. Quantos de nós já passámos por isto? E pior, quantos já contraíram doenças de pessoas que conheciam uma vida inteira? Sim, porque lá porque nós somos fiéis, isso não significa que a outra pessoa também o seja.

Quero, com esta história, partilhar uma lição. Obrigar-nos a pensar sobre as nossas escolhas, por mais tentadoras que sejam. Andar às “cambalhotas” com um gostosão da noite vale a pena o susto? Uma doença que carregamos para a vida? A impossibilidade de ter filhos? A possibilidade de contaminar as pessoas à nossa volta? Encurtar anos de vida e prejudicar a nossa saúde e bem estar? Não, não vale.

Irei sempre guardar o stress que passei com a mina amiga como uma lição. E continuarei a dar na cabeça de outras amigas que se coloquem nesta situação. Estamos no século XXI – informem-se, protejam-se e sejam felizes.