Não vos vou mentir – ao início, achei o Salvador a pessoa mais estranha de sempre que, provavelmente, tinha abusado das drogas e, daí, a sua performance em palco. Depois, percebi que estava a ser demasiado pequenina e mesquinha porque a verdade é que o Salvador tem um dom raro – o de ser ele próprio sem querer saber do que pensam dele. Bravo, Salvador!

Estamos pouco habituados a ver pessoas que fogem do “normal”, como ele. É pouco convencional a maneira como ele está em palco, mas a sua interpretação é tão viva, tão completa que não há como não sentir arrepios na pele de cada vez que a música começa a dar e ele a canta, com aquela voz tão doce, tão bem colocada, tão milimetricamente domesticada. Sim, a letra – escrita pela sua irmã, Luísa Sobral – entra facilmente no ouvido e, pelo menos eu, fico com ela entranhada na pele e começo logo a cantá-la. É que é uma letra tão pura, tão simples e tão bonita que tinha de ser cantada por uma voz ao seu nível, para lhe dar o ênfase que merece.

Acho que é também por causa da sua teatralidade que Salvador colocou Portugal onde colocou na Eurovisão e que é um potencial vencedor. Pelo menos, para mim, já o é. Acho que nunca tinha visto qualquer Eurovisão e dei por mim ontem a votar pelo Salvador.

Finalmente vejo as redes sociais a serem invadidas por posts que não sejam (só) sobre o Benfica porque, mesmo sendo benfiquista, interessa-me mais neste momento que sejamos destaque internacional pelo nosso talento. Temos tanto talento em Portugal mas somos muito pouco capazes de o destacar e lhe dar valor.

Parabéns, Salvador. Pela tua postura, pela tua irreverência, pela tua voz. Por unires meio Portugal em torno de algo cultural e não clubístico. Por me mostrares que devemos sempre ser nós próprios, mesmo quando somos diferentes de toda a gente. Dizia a minha melhor amiga que primeiro se estranha e depois se entranha e que, de gozado, Salvador passará a ser copiado. Não tenho dúvidas disso.

Agora, amem-se!