O meu irmão faz anos

Quando era pequenina, queria muito ter um irmão. Como menina mimada que era, consegui que os meus pais realizassem o meu desejo. Conceberam-no de forma a que nascesse pela altura do meu aniversário, quando ia fazer sete anos. Era uma criança na altura mas ainda me lembro da excitação que foi quando recebemos o telefonema da minha mãe a dizer que tinha nascido o meu irmão (a minha avó ficou a tomar conta de mim quando a minha mãe entrou em trabalho de parto).

O Francisco veio para casa na véspera do meu sétimo aniversário. Os meus pais e avós organizaram uma festa a duplicar com a família toda para celebrar. Foi um dia em cheio.

Não vos vou mentir e dizer que foi sempre fácil. Durante sete anos fui filha, neta e sobrinha única de um dos lados da família, e a neta mais próxima do outro lado também. Podem imaginar que fui MUITO mimada por todos. E, de repente, já não era o centro das atenções. Custou-me adaptar ao facto de ter uma bolinha de carne a desviar a atenção dos meus pais. Desculpa mano, mas muitas vezes pensei estrafegar-te.

Apesar dos ciúmes (que acho que são normais para a idade que tinha), sempre adorei o meu irmão. Tinha um instinto protector gigante em relação a ele (ainda tenho, mesmo sendo ele um homem feito) e nunca suportei a ideia de alguém lhe poder fazer mal. Brincava muito com ele. Vestia-o com as roupas dos meus bonecos (pobre coitado, há fotos maravilhosas a registar estes momentos) e brincávamos juntos com os nossos bonecos. Mais tarde, surgiram os gameboys e ficámos os dois viciados no Pokémon. Sempre com gostos muito parecidos, mesmo com 7 anos de diferença.

O meu irmão não é um rapaz normal da sua idade, e não o digo por ser meu irmão. Ele é um homem que protege e cuida da família. Está sempre preocupado com a nossa mãe e a querer ir visitá-la para que ela não se sinta sozinha. Está sempre a querer ter boas notas e a querer fazer mais da sua vida. É uma espécie de Cristiano Ronaldo: esforça-se a 200% em tudo o que se mete. É super poupado e não gasta dinheiro sem que seja realmente necessário e sabe cozinhar (basicamente frango, arroz e legumes but, who cares?). É altamente focado e motivado e quando põe uma coisa na cabeça, não há como demovê-lo. Nota-se o orgulho que tenho nesta pessoinha que vi crescer?

Tem um defeito crasso com o qual aprendi a lidar nos anos em que morámos só os dois: não se pode falar com ele quando acorda. Tem de haver ali um delay de uma hora para que perca o mau feitio matinal. É a nossa grande diferença, porque eu acordo sempre operacional e bem disposta.

Mas o melhor mesmo em relação ao meu irmão é que qualquer situação melhora quando ele chega. Esteja eu com quem estiver, é sempre melhor quando ele está presente. Porque estamos sempre a rir. Partilhamos o mesmo sentido de humor retorcido e as mesmas piadas parvas. Somos duas crianças de 10 anos quando nos juntamos e acho que os nossos pais pensam que falharam redondamente connosco quando começamos a rir que nem perdidos em espaços públicos sem que eles percebam onde começou a piada. É uma ligação que não se explica.

Não tenho palavras para descrever o que sinto por este miúdo. Tomar a decisão de ir viver com o meu namorado e deixar de viver com ele foi algo que me tirou o sono durante algumas semanas. Já não conseguia não viver com a presença dele em casa. Hoje em dia fico sempre à espera que me diga que me pode vir visitar para voltarmos às nossas parvoíces.

Não conheço mais irmãos com esta ligação tão forte. Sei que somos raros. Neste seu aniversário só lhe posso desejar que a vida lhe dê tudo aquilo que ele merece. A força para continuar motivado. A determinação para seguir os seus objectivos. Porque se há alguém que merece o mundo, é ele.

Parabéns, mano.