Melhor Amiga

Esta sexta-feira fui sair à noite com os meus dois melhores amigos. Um deles vai embarcar numa viagem durante alguns meses e, por isso, fizemos uma pequena “despedida” que consistiu num jantar e numa saída. Como já sabia que no dia seguinte ia acordar cedo, e porque estava com o carro, decidi não beber. E o que é que acontece quando eu não bebo? Não danço.

Não que o alcóol seja determinante para me divertir mas, como acho sempre que não sei dançar, tento ficar a um canto, sentada se possível, sem que notem em mim. Fomos primeiro a um bar de kizomba, onde nem me levantei da cadeira e, a seguir, fomos para uma discoteca. Mas o que não tinha em álcool, tinha em amor por aquelas duas pessoas incríveis que estavam ao meu lado. Entre uma música pop super comercial, comecei aos poucos por ir começando a dançar e, às tantas, a pista já era nossa. Estive horas a dançar, sem pensar em mais nada. Só eu, eles e a música. Cantámos, dançámos e rimos.

Até que, quando me apercebo, estou a dançar sozinha e tenho a minha melhor amiga, a Ana, a olhar para mim. Vem ter comigo e abraça-me a chorar. “Finalmente vejo-te feliz. Tu não sabes a luta e o desespero que foram estes meses. Foi uma missão, finalmente, cumprida”, disse-me ela em lágrimas. Estivemos uns valentes minutos abraçadas, num daqueles abraços que fazem esquecer o sítio onde estamos e quem está à volta. Naquele abraço, só existimos eu e ela. Mais ninguém ultrapassa aquele escudo invisível da nossa amizade.

E foi naquele momento, com aquelas palavras, que me caiu a ficha. O meu ano de 2015 foi miserável em termos sentimentais. Foram meses de uma angústia e de uma dor que eu pensava ser só minha. Angústia essa que se arrastou tempo demais.

Sei que me deixei levar por uma esperança tonta de algo que sabia que não podia acontecer. Quis acreditar que o amor que sentia era tão forte que poderia trazer as mudanças que eu queria, mas não podia estar mais longe da verdade. E aprendi a minha lição à minha custa, com muita dor e muitas lágrimas.

Foram noites e noites sem dormir, fome que não vinha, um mau estar constante e um aperto no peito que não se queria ir embora. Foi olhar-me ao espelho e sentir-me feia, horrível e sem valor. Foi um chorar todos os dias, sem razão aparente. Foi um rebaixar-me até já não haver mais nada para me rebaixar. Foi deixar que me humilhassem e contribuir para essa humilhação. Foi, sem dúvida, o meu pior momento em 26 anos.

Achava, contudo, que esta era uma dor só minha. E, apesar de esconder muita coisa à minha família e aos meus amigos, acabava por desabafar muito com a minha melhor amiga.

E foi nessa discoteca, naquele abraço, naquelas palavras, que percebi tudo. Afinal, a minha dor nunca foi só minha. Quando somos mesmo amigos de alguém, partilhamos todas aquelas dores. Foi aí que percebi que o meu amor verdadeiro era, afinal, a minha melhor amiga. Aquela que nunca, por mais erros que tivesse cometido, me abandonou e deixou de me dar na cabeça. Agora percebi o quão desesperante foi para ela ver-me no estado em que viu durante meses a fio, sempre a chorar-lhe no colo. Todas as vezes que descobria alguma coisa nova, era ela que me amparava a queda e me tentava abrir os olhos. E durante meses, fez tudo ao seu alcance para que eu recuperasse, para que eu o esquecesse e desse valor a mim mesma.

Eu já sabia que ela era única, e que a ligação que nos une é transcendente. Mas, naquele abraço, foi tudo mais além. O alívio que ela sentiu por me ver, finalmente, a recuperar (livre, solta, descontraída, em paz) é amor. Isto é o amor verdadeiro e é o único, para além da minha família, sem o qual eu não consigo viver.

Ela é a pessoa que quando eu estou doente, vem a minha casa fazer-me sopa. É a pessoa com quem basta apenas trocar um olhar para saber o que lhe vai na alma. É a pessoa que mais me dá na cabeça, mas que não desiste de mim. Que se interessa na minha vida, pelos meus projectos e que me dá ideias. É quem me incentiva sempre a não desistir e que nunca desiste de mim, nem quando eu já desisti de mim própria.

Foi então que percebi – podem passar todos os piores homens do mundo na minha vida, posso ficar solteira até morrer, mas nunca vou estar sozinha nem de coração vazio. Tenho o melhor amor de todos, em forma de melhor amiga. E isso, sei-o, é até morrer.