Como é que se diz adeus?

A semana passada terminou com uma notícia terrível, embora esperada. Perdi o meu tio e padrinho para um tumor fulminante no cérebro que, no espaço de curtos meses, lhe tirou a vida.

Confesso-vos que, no estado em que o via a “desaparecer” tão rapidamente, acredito que tenha sido o melhor. Perdermos a capacidade de nos expressar, de caminhar, de sermos independentes deve ser de uma angústia profunda. Sei que, agora, essa angústia terminou, para ele e para todos aqueles que o amavam e sofriam com ele a perda das suas capacidades.

Já foram duas grandes perdas este ano, e gostava muito que fossem as últimas. Vermos as pessoas que nos são queridas a desaparecer é um aperto constante no peito. Tira o fôlego. Faz-nos sentir pequenos.

Fico fora de mim. Frustrada por sentir que somos tão pouco, tão breves nesta vida. Que, de um momento para o outro, tudo muda. Que podemos perder alguém que nos é tanto em segundos, e que nós próprios podemos desaparecer num suspiro.

Leva-me a pensar se é esta a vida que quero para mim. Se estou a fazer tudo certo. Se um dia não vou olhar para trás e arrepender-me de não ter feito mais. De não ter vivido mais. Ou de ter feito demais para quem foi de menos.

Será que chego a velhinha, sentada no meu sofá a ver a novela com a minha melhor amiga, enquanto bebemos chá e nos rimos das nossas parvoíces de velhinhas? Será que vou encontrar a profissão que me enche as medidas todos os dias e me faz sentir realizada? Será que um dia vou correr a América Latina e a Ásia de mochila às costas? Será que vou ter um homem ao meu lado que me ame o suficiente para querer passar o resto da sua vida comigo e constituir família comigo? Será que vou olhar para trás e dizer “Caramba, vivi tanto e valeu tudo a pena”?

O problema da morte é os sentimentos e pensamentos que deixa nos vivos. A dor da perda consome. Sabem, por um lado sinto-me aliviada pelo meu tio, porque sinto que estava a sofrer. Por outro lado, fico devastada ao pensar no impacto que a sua perda tem no meu pai, de quem era irmão. E sofro por antecipação ao pensar em um dia ficar sem o meu pai. Ao escrever isto, sinto o coração a apertar tanto que fica do tamanho de uma ervilha. Sofro por mim. Sofro pelo meu pai. Sofro pelos meus primos e tia.

Desejo que, onde quer que esteja, o meu tio esteja melhor do que estava agora. E que tenha terminado a sua vida com a sensação de que viveu em pleno. De que foi um bom pai, um bom marido, um bom avô, um bom tio, um bom irmão. Que tenha sido muito feliz.

Esta semana iremos despedir-nos dele, mas como é que se diz adeus?