Aprender a Ser Feliz

Comecei a ler o livro “Simplifica a tua vida”, da Rute Caldeira, há uns dias. Não foi um livro que li em apenas um dia, não só porque a minha vida super preenchida não o permite, mas sobretudo, porque é um livro que me obrigou a digerir certas ideias, e isso leva tempo.

“Simplifica a tua vida” não é um livro igual aos que costumo ler: romances, policiais ou seres de outros mundos. Este é um livro contado na primeira pessoa, a Rute, sobre a sua experiência consigo mesma e sobre vários temas que mexem muito comigo e nos quais me revejo. Talvez por ter começado a lê-lo numa altura de muita instabilidade emocional, foi algo que fez sentido – que fez um click cá dentro, sabem? Talvez se o tivesse lido quando a minha alma estava calma e confortável, não me tivesse identificado tanto e proporcionado tantas mudanças em mim.

O livro leva-nos a reflectir sobre vários aspectos da nossa vida e a ponderar se estamos realmente bem, felizes, ou se entrámos num modo de “piloto automático”, em que deixámos de ser nós próprios.

“Só se vive uma vez” foi uma frase que ali li e que me fez abrir os olhos. É verdade… Só temos esta vida. De que vai adiantar passarmos anos e anos desta nossa (única) vida a fazermos algo contra a nossa vontade? A dedicarmo-nos a satisfazer as vontades dos outros em vez das nossas? A abdicarmos dos nossos sonhos em prole de outros? No fim, o que devemos levar connosco são as aprendizagens e, acima de tudo, as coisas boas. E cabe a nós permitirmo-nos receber as coisas boas – tudo aquilo que merecemos.

Não que com isto devamos viver a nossa vida apenas com base naquilo que queremos e que, por isso, deixemos de seguir regras e nos permitamos magoar, gratuitamente, os outros. Não é isso, de todo.

Mas de que adianta estarmos em relações infelizes? Mantermos um casamento/relação com base nas aparências? Com medo de ficarmos sozinhos? Com medo do que os outros vão dizer? Com medo que mais ninguém nos ame?

De que adianta mantermo-nos naquele emprego onde detestamos o nosso chefe? Onde nos sobrecarregam de trabalho e não nos dão valor? Onde sofremos de bullying? É com medo de não voltamos a encontrar trabalho? De que um futuro desafio profissional não seja tão bem remunerado e que deixe de existir uma estabilidade financeira tão confortável?

E de que adianta mantermos aquela amizade que só nos deita abaixo? Que nos contamina com sentimentos tóxicos? Teremos receio que os nossos outros amigos se virem contra nós? Que não voltemos a ter amigos?

Meus amigos, tudo isto são medos. Devemos deixar que os nossos medos levem avante e nos façam viver uma vida de arrependimentos? De “e se…”? Não. A verdade é essa mas também é verdade que somos seres de hábitos e que nos custa sair da nossa zona de conforto. Temos receio do desconhecido, de dar o salto e, mais tarde, nos arrependermos. Vivemos com amarras aos pés mas, quando soltamos essas âncoras, percebemos que muito melhor estará por vir. Quando nos permitimos ser quem realmente somos na nossa plenitude, o mundo conspira a nosso favor.

É que, se nos amarmos ao ponto de nos libertarmos do medo e de situações de apego, se ousarmos sair da nossa zona de conforto, a magia acontece. A vida acontece. Nós acontecemos. E tudo flui.

É incrível a sensação de libertação quando nos desprendemos dessas amarras. Dou-vos dois exemplos bem claros, e bem distintos.

Um trabalho tóxico

Abracei um desafio profissional que começou por ser um sonho. Adorava a minha equipa e tinha um gosto tremendo em crescer profissionalmente junto destes meus colegas. Pouco tempo depois, surgiu uma nova pessoa na equipa. Vou chamar-lhe de polvo, porque é essa a sensação que fiquei dela. Um verdadeiro polvo, que colocava os tentáculos em tudo. Algo ao estilo da Úrsula, da Pequena Sereia. Lembram-se dela? Pois que ela era mesmo assim. Foram meses de verdadeiro inferno para a nossa pequena equipa e para mim em especial, porque lhe respondia directamente. Cheguei ao ponto de sentir dores terríveis de estomago sempre que sabia que ia estar com ela, tal era o desconforto e a repulsa à sua pessoa que fez sempre de tudo para me prejudicar e prejudicar a minha imagem enquanto profissional.

Demorei muito tempo a tomar uma decisão. Valeria a pena todo o sofrimento? Toda a angústia? Toda a revolta e raiva que sentia? Todas aquelas dores de estômago terríveis? Tinha, há muito tempo, ponderado avançar com um novo projecto mas tinha medo de arriscar. Demorou mas foi. Tomei a decisão e vim-me embora. Subitamente, o meu estômago melhorou significativamente. Acabou-se a angústia e a má disposição. E, claro tudo fluiu e novos projectos vieram na minha direcção. E eu abracei-os.

Um homem tóxico

Outra situação diz respeito ao campo amoroso. Sempre tive uma pontaria desgraçada para me interessar pelos piores homens possíveis. Não sei bem porquê, mas acho que há um íman natural em mim que os atrai.

Quando o vi, não o achei nada bonito. Na verdade, ainda não tinha esquecido o meu ex e, talvez por isso, não lhe achei piada nenhuma. Mas ele foi insistindo e eu lá caí no feitiço. Todos os meus amigos me avisaram que ele era um playboy de segunda, mas achei que comigo ia ser diferença (que ingénua, eu sei). Aquilo que ao início começou por ser uma brincadeira para mim, acabou por se tornar um jogo perigoso onde pior do que me apaixonar, fiquei obcecada pelo caos que ele era. Era uma pessoa cheia de vícios e cheio de problemas, e eu tinha um instinto qualquer maternal onde sentia uma necessidade incrível de o salvar. Achava, na minha ingenuidade, contra tudo e contra todos, que o meu amor e dedicação o podia salvar do desastre que ele é e que, se o fosse continuando a perdoar, ele iria mudar. Escusado será dizer que ele nunca mudou, e que foi tudo um jogo de mentiras, traições e humilhações.

O problema é que eu não conseguia saltar fora do enredo. Ele fazia as asneiras e eu é que andava atrás. E quanto mais asneiras ele fazia, mais eu andava atrás. Foi um período absolutamente doentio da minha vida, do qual não me orgulho nada. Mas precisei de passar por ele para chegar onde estou hoje.

Foram quase dois anos da minha vida. Quem era eu, afinal? Não me reconhecia nas minhas atitudes. Repreendia veemente as minhas amigas que se colocavam na mesma situação e, depois, fiz igual e pior. Passava a vida a chorar. Angustiada. De coração nas mãos. Deixei de comer e foi aí que perdi quase 10 quilos.

Foi preciso bater no fundo e chegar ao meu limite. Parecia que não havia salvação para mim, mas havia. Eu é que, até então, não tinha querido ver. Decidi chorar tudo, deitar tudo cá para fora. Foi o meu luto e, quando o fiz, libertei-me daquela prisão. Foram alguns dias a chorar pela percepção de que me ia desprender do meu vício. Mas consegui. Quando tomei essa decisão, rapidamente a vida se encarregou de me colocar coisas boas no meu caminho. Surgiu uma viagem ao México com a minha melhor amiga, que se tornou na viagem da minha vida. Foram dias de coração cheio, como não é possível descrever. E quando tirei aquele caos todo de cima de mim, tornei-me mais leve e mais eu. E parece que quando somos nós mesmos, livres e sem apegos, atraímos coisas e pessoas boas. De repente, parecia que o sexo masculino tinha re-descoberto interesse em mim e, sem que eu procurasse fosse o que fosse, encontrei um grande amor. Devagar, sem preconceitos, entranhou-se em mim de uma forma bonita e saudável, o oposto do que tinha tido até então.

São duas histórias com contextos diferentes, mas aprendizagens semelhantes. É importantíssimo percebermos se estamos realmente felizes onde estamos. Se as pessoas e os trabalhos que escolhemos na nossa vida não são âncoras que nos prendem mas, pelo contrário, ventos que sopram a nosso favor.

Devemos a nós mesmos sermos felizes. É a nossa maior obrigação para connosco próprios. A vida passa a correr e temos de a aproveitar ao máximo. Soltar as amarras e agarrar os sonhos e tudo aquilo que nos faz feliz. Deixemos os fretes para as situações realmente necessárias e sejamos felizes.

Estamos a tempo. Estamos SEMPRE a tempo.

Podem saber mais sobre o livro “Simplifica a tua Vida”, aqui.